O Guardião Supremo da Própria Razão

Décadas na Câmara, muitos discursos e quase nenhum resultado. Um retrato irônico do vereador que critica tudo, se considera o detentor absoluto da moralidade e coleciona discursos pseudo intelectuais sem relevância prática para o município.

O Guardião Supremo da Própria Razão
Imagem gerada por IA

Há figuras na política municipal que parecem ter confundido mandato eletivo com cadeira cativa em sessão de reclamação permanente. Décadas frequentando a Câmara Municipal como quem bate ponto num teatro repetindo o mesmo roteiro: indignação seletiva, discursos inflamados, moralidade performática e absolutamente nenhuma entrega concreta para a cidade.

O nobre vereador, autoproclamado guardião supremo da honestidade pública, vive sustentado pela narrativa de que “não participa de esquemas”, “não faz rachadinha” e “não compactua com corrupção”. O curioso é que isso virou sua maior — e talvez única — realização política. Como se não roubar fosse um diferencial extraordinário, e não simplesmente a obrigação mínima de qualquer agente público minimamente decente.

Projetos relevantes? Nenhum que tenha atravessado o tempo com impacto minimamente perceptível para a cidade. Depois de décadas ocupando cadeira, tribuna e microfone, o saldo político parece resumido a apartes agressivos, sessões de indignação performática e monólogos intermináveis sobre moralidade pública. Enquanto outros discutem obras, investimentos, modernização e soluções práticas, o nobre edil permanece preso ao personagem do “último homem honesto da política”, sustentando discursos pseudo intelectuais recheados de frases dramáticas, críticas repetidas e uma arrogância retórica que tenta substituir competência por barulho.

O personagem é previsível: critica tudo, todos e qualquer iniciativa que não tenha saído da própria cabeça. Ataca colegas, desmerece servidores, trata novatos com chilique institucional e agressividade teatral, numa tentativa quase caricata de impor medo pelo volume da voz e não pela qualidade do conteúdo. A oratória pode até estar em dia; já a utilidade pública, essa parece aposentada há muitos mandatos.

Existe algo quase fascinante em alguém conseguir permanecer tantos anos na política sem deixar um legado minimamente proporcional ao tempo ocupado. É como assistir a um comentarista esportivo que nunca entrou em campo, mas se considera o único capaz de ensinar futebol aos jogadores.

Em pleno 2026, seguimos presos a uma política municipal envelhecida justamente por figuras assim: especialistas em apontar defeitos, incapazes de construir soluções. Gente que confunde oposição com sabotagem, debate com grosseria e moralidade com arrogância.

E talvez o mais irônico seja isso: alguém que fala tanto sobre convivência democrática, mas sequer consegue tolerar que outra pessoa fale junto sem reagir com destempero autoritário. Falta-lhe a mínima habilidade humana para o diálogo. Talvez realmente devesse observar mais os animais — muitos deles convivem em grupo com mais equilíbrio, respeito e inteligência social do que certos representantes públicos que passaram décadas ocupando uma cadeira sem jamais compreender o verdadeiro significado de representar uma cidade.